Uso de testosterona sem indicação pode aumentar risco cardiovascular, revela estudo​‌​

Estudo revela que uso de testosterona sem indicação pode aumentar risco cardiovascular em homens.

Uso de testosterona sem indicação pode aumentar risco cardiovascular, revela estudo​‌​

O uso de testosterona tem se tornado comum entre homens, mesmo entre aqueles sem diagnóstico de deficiência hormonal. Um estudo internacional, publicado na revista eBioMedicine, do grupo The Lancet, alerta que a terapia com testosterona, quando não indicada, pode elevar o risco cardiovascular a longo prazo.

A pesquisa analisou dados de 358.957 homens, com idades entre 30 e 75 anos, de 123 organizações de saúde ao redor do mundo. Desses, cerca de um terço, ou 127.152 homens (35,4%), não apresentava evidências documentadas de deficiência de testosterona ao iniciar o tratamento.

Após um rigoroso pareamento estatístico, foram acompanhados 113.554 pares de homens por até dez anos.

Risco cardiovascular elevado sem hipogonadismo documentado

O principal foco do estudo foi a ocorrência de eventos cardiovasculares maiores, conhecidos como MACE, que incluem morte por qualquer causa, infarto, acidente vascular cerebral isquêmico e parada cardíaca. Ao longo de dez anos, 16,53% dos homens que receberam testosterona sem evidência de deficiência hormonal apresentaram esses eventos, em comparação com 11,83% dos tratados com base em hipogonadismo.

Isso representa um aumento relativo de aproximadamente 51% no risco para o grupo sem evidência de deficiência hormonal. Além disso, foram observadas associações com maior risco de mortalidade geral, acidente vascular isquêmico e insuficiência cardíaca.

Importância do diagnóstico adequado

O estudo não afirma que a testosterona seja “perigosa”, mas destaca a importância do diagnóstico. O desenho observacional da pesquisa sugere uma associação entre o uso não indicado de testosterona e o aumento do risco cardiovascular, sem afirmar causalidade.

Pesquisas anteriores, como o estudo TRAVERSE, não encontraram aumento de eventos cardiovasculares em homens com deficiência de testosterona tratados adequadamente. Portanto, é crucial diferenciar o tratamento de reposição hormonal em homens com deficiência comprovada do uso indiscriminado por aqueles com níveis normais.

Testosterona como tratamento médico

A testosterona não deve ser vista apenas como um meio para melhorar a disposição ou a performance física. O diagnóstico de hipogonadismo requer avaliação clínica e confirmação laboratorial. As diretrizes atuais recomendam a terapia para homens com níveis consistentemente baixos e desencorajam seu uso em homens com níveis normais.

Além disso, o uso de testosterona pode elevar o hematócrito, influenciar a pressão arterial e outros parâmetros cardiovasculares. No estudo, homens com hematócrito acima de 50% que receberam testosterona sem evidência de hipogonadismo apresentaram risco levemente maior de eventos cardiovasculares.

Alerta sobre o uso anti-aging

Um dado alarmante do estudo é que aproximadamente um em cada três homens utilizava testosterona sem comprovação de deficiência hormonal. Isso levanta questões sobre o uso da testosterona para combater o envelhecimento e melhorar a energia, massa muscular e desempenho em homens sem hipogonadismo.

A testosterona é um tratamento médico, não um simples suplemento. É essencial entender as causas dos sintomas, confirmar a deficiência hormonal e avaliar os riscos e benefícios individualmente antes da prescrição.

Limitações e considerações finais

Os autores do estudo reconhecem limitações, como a impossibilidade de determinar a dose e a formulação da testosterona, além da adesão ao tratamento. A ausência de diagnóstico de hipogonadismo não significa que o paciente não tenha deficiência hormonal, pois alguns exames ou sintomas podem não ter sido registrados.

Assim, os resultados devem ser vistos como associações, não como prova de causalidade. A mensagem principal é que o contexto do tratamento é fundamental. Não se deve demonizar a testosterona, mas sim investigar a causa da deficiência antes de iniciar qualquer terapia.

Referência

Kerniss H, Curman P, Olbrich H, Kridin K, Francis R, Leistner DM, Alam U, Ludwig RJ. Off-label testosterone therapy is associated with higher long-term cardiovascular risk in men. EBioMedicine. 2026 Jul 9;130:106373.

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Fonte: ver matéria original.